NÃO LEU, O PAU COMEU!
É hora de reconduzir os alunos e o público a dietas de leitura mais saudáveis
O recente Acordo Ortográfico parece um texto amoroso escrito por ginecologistas. Um sexólogo pode orientar os clientes, jamais substituí-los!
Leitores podem ser botânicos ou jardineiros das palavras! Mas serão sobretudo aqueles a quem oferecemos rosas, às vezes com espinhos, não por pressa, mas necessidade. Muitos são autores! Por que não os respeitamos? Que se pode fazer para escrever melhor?
A questão é envolvida por sutilezas complexas, mas em resumo o ato de escrever semelha ao de falar. Foi ouvindo que aprendemos a falar. Uma vez alfabetizados, foi lendo que aprendemos a escrever. Quem lê, escreve melhor.
Dizer e escrever, embora atos assemelhados, guardam complexas diferenças. Se você falar sozinho, será dado por louco. Mas, quem escreve um diário, não faz colóquio, faz solilóquio. Quem escreve usa outra voz, mas fala!
Gosto da metáfora nos comentários que aludem a autores e livros: "Fulano diz isso no livro tal". O leitor afirma que o autor diz algo, mas ele não falou, escreveu!
Não é desejável que um jornalista, ainda que competente, escreva como Euclides da Cunha. Mas é imprescindível que o leia! Os Sertões tornou-se clássico, mas antes de Luís de Camões, Antônio Vieira, Machado de Assis, Castro Alves, Graciliano Ramos, Cecília Meireles e outras referências solares da escrita. É hora de reconduzir alunos e público a dietas de leitrua saudáveis.
Para redigir no dia-a-dia, o uso da língua escrita é um; para literatura, é outro. Todavia, escreve melhor quem tem qualidade de leitura compatível com o ofício que pratica, com uma exceção: os especialistas estão ficando ignorantes por evitarem obras fundamentais. Marx, para se fazer entender, usa com frequência citações literárias. Que economista faz isso hoje? E ele explicava O Capital, não a inflação ou a taxa de juros do mês! Sócrates e Jesus falavam e ensinavam a ignorantes e sábios. Os temas eram complexos, falavam de filosofia e teologia, e todos os entendiam, de pescadores a doutores da Lei.
Há muitas receitas de como escrever melhor. Poucas indicam a simples e eficiente: ler! alguns são cínicos. Receitam medicamentos que não tomam! e validam qualquer texto! Professores que assim procedem, traem o aluno! O que não ensinam, a vida cobrará dele!
Há muitas oficinas de literatura! Precisamos de outras tantas de leitura!
(Deonísio da Silva. Mente e Cérebro. Ano 5 nº 63. jan.2011)

Nenhum comentário:
Postar um comentário